Gabriella Servi fala sobre sua viagem alucinante por Pernambuco, confira a matéria exclusiva para o Portal Radical.
Oi Eduardo, falo do surf que vivi em Porto de Galinhas por 57 dias. Não sou nenhuma surf pro, pelo contrário, sou uma iniciante mas completamente aficcionada pelo esporte desde o dia em que me encontrei nesse universo. Conversei com muita gente local que me contou sobre o cenário do surf por lá.
No final do ano passado resolvi fazer uma trip um pouco mais longa do que as dos anos anteriores. Eu já havia explorado alguns cantos por aqui mesmo, por Santa Catarina. Todos os picos clássicos que me remetem à infância: Bombinhas e todas as suas praias desde Bombas, passando pelas Quatro Ilhas, Mariscal e terminando na remota praia Vermelha com seu único e exclusivo acesso por uma trilha – no maior estilo roots. Floripa, nossa eterna Ilha da Magia; mais ao sul Guarda do Embaú, e a lista segue.
Então, mas e aquela trip mais longa? Bom, graças à minha amiga, Carol que hoje mora lá na parte de cima do país, fui transportada para um Brasil bem mais remoto e histórico do que um dia imaginei: estava enfim indo para o Nordeste, mais especificamente Pernambuco. O dia era 21 de dezembro de 2010 e depois de trocar duas vezes de aeronave finalmente, à meia noite, cheguei ao destino - o Aeroporto Guararapes em Recife. Logo avistei minha amiga que me hospedou enquanto fiquei pelo estado. Seguimos rumo ao sul por aproximadamente, cinquenta minutos pela BR-101 sem trânsito. Logo que chegamos à vila de Porto de Galinhas percebi que o lugar é bem menos “Babilônia” do que pensei ser.
Fiquei na Vila de Porto, na divisa entre a praia central e Maracaípe. Não vou me prender aos detalhes do dia-dia como: falta de transporte público, de dinheiro nos caixas eletrônicos, de policiamento, de capacetes nas cabeças dos motociclistas. Mesmo nunca tendo ido a Bangladesh me senti bem perto de lá; eram três, quatro pessoas – mulheres, homens, crianças e adolescentes – em cima das motos e essa era uma cena super frequente.
Na primeira manhã acordei meio atordoada, acho que meu cérebro não estava captando que eu, naquele momento, já estava num lugar diferente. Então, a primeira coisa a fazer foi correr até a praia. No caminho fui percebendo a dimensão da estrutura divina, ele passava no meio de uma plantação gigantesca de coqueiros. Quando vi o mar fiquei extasiada: água verdinha, clarinha, simplesmente mais do que cristalina! Como é lindo o Atlântico nas bandas de cima do litoral brasileiro! Me senti como se estivesse num mundo totalmente paralelo, quase dentro do paraíso. E as ondas? Bom, parece que não importa a direção do vento, é raro ter um dia sem onda nos picos mais tradicionais da região.

Existe uma relação muito forte entre férias de família, de casais e o lugar em si, mas eu pude ver e viver uma Porto de Galinhas muito mais surf way of life do que um dia pensei. Longe das barracas, dos muito ambulantes vendendo tudo o que se possa imaginar, dos bugs e do agito de fim de ano, consegui sentir aquele “cheiro de surf” no ar. Aquela inconfundível vibe da prancha, dos cabelos parafinados e da galera na fissura das ondas. Já no meu primeiro “rolê” percebi um detalhe muito peculiar entre os pernambucanos: o não uso do leash. A impressão foi de que eles simplesmente não precisam dele, já que em alguns picos as ondas quebram próximas da areia.
O que muita gente conhece como “Porto de Galinhas”, na verdade é um conjunto de praias na cidade de Ipojuca (PE). No sentido norte-sul a primeira é a do Cupe (Borete/Merepe) que tem extensão de aproximadamente seis quilômetros. Existem boas valas por toda ela e dizem que rolam muitas ondas tubulares nos meses de inverno, entre abril e agosto. Nos dias mais clássicos bate um terral matinal e como a água continua morna, a galera faz a cabeça.
Foi lá que conheci a surfista pro e local do pico, Ramayana Silveira. Ela já foi bi-campeã do circuito Master (2005/2006), campeã Nordestina (2006), campeã Pernambucana (2006) e por aí vai. Também conheci outros locais que me contaram sobre o cenário do surf em Pernambuco.
A próxima praia é Porto de Galinhas, me surpreendi quando descobri que lá também tem surf sim, e é de reef. A bancada é rasa, fica mais distante – mais ou menos uns quinhentos metros - e o canal facilita a entrada no pico. A direita quebra na maré cheia, é uma onda forte e tubular que nos dias mais “cascas” pode chegar a dois metros de altura. Já a esquerda quebra na maré seca e é considerada uma das mais tubulares por lá.
Caminhando um pouco mais, logo se está em Maracaípe. Com cerca de quatro quilômetros de extensão, lá rolam as melhores ondas e é fácil de perceber pela crowd sempre presente.
Se o mar estiver pequeno ou mexido em outros lugares vale sempre conferir “Maraca” que, na minha ainda muito novata e humilde opinião, é a praia mais guerreira de todas segurando praticamente qualquer ondulação, vento e swell. Mas o local favorito da galera, e onde as melhores ondas ficam, é nas proximidades do palanque fixo. Em dias bons elas vem volumosas do outside e capazes de emendar com uma tubeira no inside. Pode acontecer de rolar uma corrida de uns 100-150 metros com chances de se ficar alguns longos minutos viajando sob a prancha nos aéreos e em todas as outras manobras disponíveis na mente. É por todos os atributos aquáticos que muitos campeonatos acontecem nesse lugar.

E pra fechar com chave de ouro tem uns dois barzinhos na areia da praia que ficam tocando uma “reggaeira” ao vivo durante todo o dia. Deus foi generoso e atencioso com cada grão de areia, coqueiro, mar e condições de ondas.

A primeira parte da minha trip chegou ao seu fim no dia 17 de fevereiro de 2011, quando saí de Recife rumo à Salvador. Foram 57 dias de muitos perrengues, alguns milhares de muriçocas (mosquitos a La pernambucana), quilos de areia retirados dos cabelos e muito, mas muito sol, calor e alto astral.
Valeu Pernambuco!
“Só vai”.
Gabriella Servi